10 de Setembro, 2026

DISCERNIMENTO É SEMPRE NECESSÁRIO

DISCERNIMENTO É SEMPRE NECESSÁRIO

Artigo por Willes J. Silva

Pastor batista, formado em Música Sacra e Teologia

Pela segunda vez, a voz lhe falou: Não considere impuro aquilo que Deus purificou” Atos 10.15

Às vezes, torna-se difícil entender os métodos divinos. Nem sempre aquilo que pensamos ser o meio mais adequado é o que Deus escolhe para que alguém seja alcançado pelo evangelho. Não conseguimos acompanhar a lógica de Deus, até mesmo devido ao nosso limitado conhecimento das coisas e à nossa limitada percepção da realidade. A própria Bíblia é repleta de exemplos de Deus usando meios aparentemente inapropriados para que sua mensagem fosse recebida e sua vontade, realizada.

No entanto, isso não significa que qualquer método possa ser usado com o propósito de divulgar o evangelho. Existem dois limites para isso: o pecado e a aparência de pecado.

Se algo flagrantemente induz ao pecado, à sensualidade e à incontinência dos desejos, deve ser imediatamente rejeitado como possibilidade de ser usado em prol do Reino. Deus não compactua com o pecado. Se entendemos bem o texto de Isaías 59.2, o pecado nos afasta do Senhor. Em outras palavras, Deus não estaria nesse “negócio”. Podemos afirmar com certeza que muito do que se faz nos dias atuais em nome de Deus não tem a sua aprovação.

Outro limite é a aparência do pecado (não estou me referibdo aqui à “aparência do mal”, conforme 1 Tessalonicenses 5.22). Algo não precisa ser necessariamente pecaminoso para ser rejeitado; basta apenas que pareça pecaminoso. Toda prática que gere alguma dúvida no coração das pessoas envolvidas, sejam elas os agentes ou os alcançados, deve ser evitada. Para muitos, a simples manifestação de algo que a desabone torna-se um impeditivo para aceitar o que está sendo feito e uma barreira para receber a mensagem pregada. Por isso, o Apóstolo Paulo deixou um importante filto para as escolhas que temos de fazer: "Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o pensamento de vocês (Filipenses 4.8).

No texto acima, aparentemente acontece algo contraditório aos olhos de Pedro. Ele estava com fome, pois já era meio-dia, quando Deus lhe apresentou, em visão, diversos animais considerados imundos para que lhe servissem de alimento. Pedro deveria matar os animais e comê-los. Ele, porém, retrucou, dizendo que em sua vida nunca havia comido nenhum animal imundo, como bom judeu que era. A Lei judaica apresentava diversas restrições dietéticas em relação aos animais que podiam servir de alimento. Diante de tal recusa, Deus proferiu a célebre, mas frequentemente incompreendida, frase: “Não considere impuro aquilo que Deus purificou”.

Duas considerações podem ser feitas sobre esse acontecimento. A primeira é que se tratava de uma visão. Não era algo que de fato estava acontecendo. Pedro não precisou transgredir sua consciência e comer um animal imundo. Creio que ele continuou observando essa restrição depois desse momento.

A segunda consideração é que a visão tinha o propósito de preparar o apóstolo para o que aconteceria logo a seguir. Deus estava preparando Pedro para o encontro com Cornélio, que se daria por Sua providência. Para um judeu, o contato com um gentio, entrar em sua casa e considerá-lo também como irmão e participante do povo de Deus era algo muito difícil. Mas Deus havia transformado Cornélio, de um pecador impuro, em alguém lavado e purificado pelo sangue de Cristo.

Precisamos entender que a ocorrência de situações como essa é muito rara. Enquanto isso, devemos utilizar meios adequados, que não interfiram na recepção das pessoas ao evangelho por serem duvidosos quanto à sua correção. O propósito de anunciar o evangelho não justifica o uso de métodos que possam comprometer a santidade da mensagem ou criar obstáculos desnecessários à sua recepção.

Willes J. Silva é pastor da Igreja Batista em Nova Suíça (IBENS), em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Trabalhou por muitos anos como professor de matemática e ciências. Inicialmente começou seu trabalho em igrejas batistas como Ministro de Música. Posteriormente se formou em Teologia, fez Mestrado, assumindo trabalho ministerial como pastor.