20 de Novembro, 2025
Fé E Prática
Artigo por Willes J. Silva
Pastor batista, formado em Música Sacra e Teologia
“Então José, a quem os apóstolos chamavam de Barnabé, que quer dizer filho da consolação, um levita natural de Chipre, vendeu um campo que possuía, trouxe o dinheiro e o depositou aos pés dos apóstolos” Atos 4.36,37
O mundo está confuso em relação à fé cristã. Apesar de haver no Brasil uma disparada no número de evangélicos, não vemos o reflexo disso na sociedade. Corrupção, crimes, desavenças, polarização, intolerância nas mais diversas formas, falta de santidade dos crentes, ausência de Deus e incentivo à prática do pecado é o que mais encontramos. Quais são as razões para tal disparate?
O texto acima traz a informação de um homem que não morava em Jerusalém, mas era um levita que havia se convertido ao cristianismo. Embora nos textos bíblicos posteriores possamos encontrar um Barnabé que conhecia as Escrituras e foi o principal discipulador de Paulo após a sua conversão, o levita era alguém que cuidava do templo e trabalhava para que as cerimônias religiosas pudessem acontecer sem dificuldades. Isso significa que era alguém que enxergava a fé através da ótica do serviço. Para ele, fé e prática não eram coisas diferentes, mas se relacionavam intimamente.
Ao se deparar com uma situação em que os novos convertidos passavam necessidades devido à conversão a Cristo – eram expulsos do convívio familiar, perdiam empregos e bens – Barnabé viu mais uma oportunidade de servir. Como estava acostumado a praticar o que cria, ele vendeu uma propriedade e entregou aos Apóstolos o valor que havia conseguido com a venda para que fosse usado no atendimento aos crentes necessitados.
Isso leva a pensar que uma das razões da incoenrência entre o grande número de evangélicos e a falta de reflexo positivo disso no Brasil (e até no mundo), tem a ver justamente com a dicotomia entre fé e prática. Dicotomia é uma palavra que quer dizer separação; ela realça a diferença essencial que que podemos fazer entre uma coisa e outra. Muitos evangélicos dizem: “Eu tenho muita fé em Jesus”, mas vivem de forma diferente. Para eles a fé é um conjunto de crenças que ficam armazenadas no coração, mas que não tem a ver com o dia a dia. A fé para eles, plagiando o filósofo Platão, fica a nível das ideias, ou seja, vivem um platonismo moderno, onde a fé existe somente a nível das emoções. Não é vista nos relacionamentos diários, nas práticas comerciais ou no lazer.
Tiago, o meio irmão de Jesus, escreveu em sua carta: “Você tem fé, e eu tenho obras. Mostre-me essa sua fé sem as obras, e eu, com as obras, lhe mostrarei a minha fé” (Tiago 2.18). Ele está dizendo que a fé no coração precisa se tornar visível. As obras que fazemos, sejam elas assistenciais ou outra qualquer, revelam o tipo de fé no coração. A ausência da prática pode indicar ausência da fé.
Outra razão para esse problema é a dificuldade que os crentes modernos possuem em entender que a fé cristã se traduz em serviço. Esse serviço acontece em duas esferas, a Deus e aos homens. Servimos ao Senhor quando estamos cultuando junto com o seu povo, estudando a Sua Palavra e orando sozinhos em nossa devoção particular. É uma fé que vai sendo alimentada e vai crescendo a ponto de ser exteriorizada através de uma vida condizente com os princípios bíblicos.
Servimos aos homens por meio do exercício dos nossos dons e da prática da comunhão. do Corpo de Cristo. Devido a isso, no Corpo de Cristo há socorro, edificação e admoestações (aconselhamento e disciplina). Também servimos através do nosso testemunho ao demonstrarmos uma postura ética não encontrado num mundo que rejeita a Cristo. Fé e vida andando juntas. A falta de uma vida coerente com as Escrituras é que provoca a distorção entre o número crescente de evangélicos e a ausência de uma sociedade restaurada.
Que os crentes cada vez vivam a fé que abraçaram, para que o mundo entenda quem é Jesus e a sociedade venha a se render aos pés de Cristo.